Publicado pela Editora Telha, Nós entre três reúne catorze contos que encaram o desejo como um direito, e o corpo como território de subversão, fricção e memória
“Há livros que nos atravessam como um sopro quente na nuca. Outros nos puxam pela cintura, nos encostam na parede da existência e dizem: sente. Este é dos dois — e ainda nos beija a alma com a língua quente do verbo sentir.”
Caroline Amanda, fundadora da Yoni das Pretas
Como falar de sexo sem performance? Como escrever o desejo de mulheres negras sem filtros, sem culpa e sem moldes brancos de romantismo? Essas são algumas das perguntas que atravessam Nós entre três, livro de estreia da jornalista, escritora e consultora em diversidade Monique dos Anjos (@imonquequedisse), publicado pela Editora Telha (2025, 124 págs.).

O livro conta com prefácio de Caroline Amanda, cientista social, psicanalista e especialista em saúde íntima, reprodutiva e sexual, além de fundadora da Yoni das Pretas, e comentários de contracapa de Mayumi Sato, pesquisadora de sexualidade que lidera a maior rede social de sexo do Brasil.
A obra reúne catorze contos eróticos de fôlego, escritos ao longo de seis anos, em que mulheres — negras, não negras, mães, maduras, inseguras ou em busca de si — vivem o desejo a partir das suas próprias subjetividades. Monique recusa a lógica do erotismo domesticado. Escreve sobre o cheiro da pele, o suor depois do gozo, a ambiguidade dos encontros, o amor que atravessa o sexo, a mulher que deseja mesmo depois da maternidade, mesmo depois da dor. “Quero que mulheres saibam que o acesso ao prazer — e, sobretudo, ao gozo — é um direito que nos foi negado”, diz a autora. “Não quero mais torcer para mocinhas que não se parecem em nada comigo. Quero escrever sobre as que têm medo, contradições, vontades, falhas — como eu.”
Nós entre três é um livro sobre o corpo como território — físico, político e íntimo. Sobre o sexo como linguagem que revela e perturba. Em vez de moldar suas personagens à expectativa do leitor, Monique as libera para errar, recuar, gozar, inventar novos pactos de afeto. O erotismo aqui não é um fim, mas um ponto de partida para pensar como mulheres ocupam seus próprios desejos e narrativas.
Mais do que um projeto literário, o livro representa uma virada pessoal. Crescida em um ambiente onde “seguir regras” era uma forma de proteção contra o racismo, Monique fez da escrita erótica um espaço de autonomia. “É sempre uma surpresa para as pessoas que eu, uma mulher comum, mãe, que transita em ambientes corporativos e escolas, ainda encontre tempo e coragem para escrever contos eróticos. Tenho muitos medos. Muita culpa. Mas se tem um lugar onde me sinto segura é na escrita. Nele e por ele eu não me desculpo.”
Literatura erótica decolonial: do silêncio ao grito do corpo
Ao rejeitar a ideia de literatura erótica como produto performático ou escapista, Nós entre três propõe outra rota. O texto não foge das contradições, mas mergulha nelas: personagens que desistem no meio do ato, que não sabem se querem amor ou vingança, que pensam no ex enquanto transam, que se descobrem amando outra mulher ou se permitem sentir com dois homens ao mesmo tempo — e depois se arrependem, ou não.
A escrita de Monique é direta, íntima, suada. Seus contos disputam um lugar hoje dominado por narrativas genéricas, moldadas por algoritmos ou pela lógica de mercado. Ao assumir a perspectiva de uma mulher negra, retinta, que se recusa a pedir licença para existir, o livro se torna também um manifesto por uma literatura do prazer vivida em nossos próprios termos — e não sobre nós.
Quem é Monique dos Anjos
Monique dos Anjos é jornalista, escritora e mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp. Nasceu na periferia da cidade de São Paulo, em Arthur Alvim, e hoje vive no interior paulista. Morou no Panamá, no Canadá, na Alemanha e em outros países da Europa. Trabalhou como jornalista em redações como Superinteressante, Claudia, Cosmopolitan e Vida Simples, foi repórter do Abril.com e colabora, atualmente, com empresas, escolas e organizações comprometidas com a equidade racial e de gênero.

É fundadora de uma consultoria de diversidade que atende instituições como Hospital Albert Einstein, Sesi Senai Goiás, Cushman & Wakefield, Sesi Senai Goiás, Ultragaz, Fundo Agbara e Nação Valquírias, onde atua como mentora de mulheres negras. Também realiza palestras e oficinas de educação antirracista em escolas públicas nos arredores de Campinas.
Referências que atravessam corpo, desejo e política
A escrita de Monique é influenciada por autoras como Audre Lorde, Lélia Gonzalez, Grada Kilomba, Neusa Santos Souza e Conceição Evaristo — pensadoras que transformaram linguagem em ação. “Audre me ensinou que o erótico é uma fonte de poder arrancada de nós. Lélia me mostrou como a oralidade pode coexistir com a academia. E Grada e Neusa me fizeram entender o quanto o racismo atua nas nossas relações afetivas.”
Ela também se inspira em vozes contemporâneas que abordam sexualidade de forma corajosa e sem concessões, como Amanda Carolina (Yoni das Pretas), Carmen Faustino, Mayumi Sato (Sexlog), Sofia Menegon (Louvadeusa), Lais Conter (Melambe) e Mariah Prado (Share Your Sex).


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